Existe uma queixa que aparece no meu consultório com uma frequência que ainda surpreende muita gente: Queda de libido em homens.
Homens entre 50 e 70 anos relatam que o desejo sexual foi diminuindo com o tempo. Não foi de uma hora para outra, mas gradual, quase imperceptível no começo.
Primeiro acharam que era cansaço. Depois, estresse do trabalho. Depois, “coisa da idade”.
No entanto, a queda de libido em homens é um dos sintomas mais subestimados da medicina masculina. Muitos homens aceitam essa queda como algo inevitável, como se fosse parte obrigatória do envelhecimento. Não é.
Neste artigo, explico o que está por trás dessa mudança, o que a ciência diz a respeito e quais são os caminhos disponíveis para quem quer retomar a qualidade de vida sexual e o bem-estar geral.
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Queda de libido e disfunção erétil são a Mesma Coisa?
Muitos homens acreditam que a queda de libido e a disfunção erétil são a mesma coisa. Entretanto, não são.
Essa é uma distinção que faço questão de esclarecer logo no início da consulta, porque a confusão entre os dois é muito comum.
Em primeiro lugar, é preciso definir que a libido é o desejo sexual.
É a vontade, o interesse, o impulso de querer ter uma relação.
Por outro lado, a disfunção erétil é a dificuldade de obter ou manter uma ereção satisfatória.
Embora sejam condições distintas e com causas parcialmente sobrepostas, elas definitivamente não se equivalem.
Por exemplo, um homem pode ter a libido preservada e, ainda assim, apresentar disfunção erétil. Da mesma forma, outro pode ter ereções sem dificuldade, mas sem nenhum interesse em usá-las.
Adicionalmente, há ainda aqueles que apresentam as duas condições ao mesmo tempo, o que é mais comum quando a causa de base é hormonal.
Portanto, identificar qual é qual muda completamente o raciocínio diagnóstico e o tratamento.
O que é a Andropausa e por que esse nome gera confusão?
O termo andropausa é amplamente usado; contudo, ele é tecnicamente impreciso.
Diferentemente da menopausa feminina, que representa uma interrupção relativamente abrupta da produção hormonal ovariana, o que acontece no homem é uma queda lenta e progressiva nos níveis de testosterona ao longo dos anos.
Nesse sentido, não existe um marco claro ou um momento em que a produção cessa totalmente.
Devido a isso, a terminologia mais adequada e aceita pela comunidade científica é DAEM: Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino.
Outros termos utilizados são hipogonadismo de início tardio ou, em inglês, “late-onset hypogonadism”.
Em suma, todos se referem ao mesmo fenômeno: a queda progressiva da testosterona associada ao envelhecimento, que resulta em sintomas que afetam a qualidade de vida do homem de formas bastante concretas.
A partir de que idade a testosterona começa a cair?
Os níveis de testosterona total começam a declinar de forma mensurável a partir dos 30 anos, a uma taxa média de aproximadamente 1% a 2% ao ano.
Consequentemente, aos 50 anos, um homem pode ter níveis significativamente menores do que tinha aos 30, mesmo sem perceber de forma clara.
É importante ressaltar, porém, que essa queda não acontece de forma igual para todos. Fatores como genética, estilo de vida, presença de doenças crônicas, composição corporal e hábitos como tabagismo e consumo de álcool influenciam diretamente o ritmo desse declínio.
Por esse motivo, alguns homens chegam aos 65 anos com níveis hormonais bem preservados, enquanto outros chegam aos 50 com uma queda que já está impactando a qualidade de vida de forma evidente.
Quais são os sintomas da deficiência androgênica do envelhecimento masculino?
A queda de libido é, com frequência, o primeiro sintoma que leva o homem ao consultório. No entanto, ela raramente vem sozinha. A DAEM é uma síndrome clínica, o que significa que se apresenta como um conjunto de sinais que precisam ser avaliados de forma integrada.
Dentre os principais sintomas relatados, destacam-se:
- Redução do desejo sexual: O interesse diminui progressivamente, muitas vezes descrito como uma “indiferença” crescente.
- Disfunção erétil: A queda hormonal contribui para dificuldades tanto na obtenção quanto na manutenção da ereção.
- Fadiga e redução da energia: Um cansaço persistente, presente mesmo após uma boa noite de sono. Meus pacientes costumam descrever como uma sensação de “bateria que não carrega mais”.
- Alterações do humor: Irritabilidade sem causa aparente, tristeza ou desmotivação. Muitas vezes, esses sintomas levam o paciente ao psicólogo antes de chegar ao urologista.
- Redução da massa muscular: Como a testosterona é fundamental para a síntese proteica, muitos percebem perda de massa mesmo sem mudanças na rotina.
- Aumento da gordura abdominal: Além de ser um sinal físico, a gordura abdominal aumenta a conversão de testosterona em estrógeno, o que reduz ainda mais os níveis do hormônio masculino.
- Redução da densidade óssea: Embora raramente percebido diretamente, aumenta o risco de osteoporose e fraturas a longo prazo.
- Distúrbios do sono e da cognição: Dificuldade para dormir, lapsos de memória e a sensação de “névoa mental” são queixas frequentes.
Como é feito o diagnóstico da DAEM?
Para que o diagnóstico seja preciso, ele deve ser clínico e laboratorial. Ou seja, não basta um exame de sangue isolado, assim como não basta apenas a presença dos sintomas.
Do ponto de vista clínico, utilizo questionários validados, como o AMS (Aging Males’ Symptoms).
Contudo, o que mais importa é a conversa detalhada sobre o sono, humor e disposição do paciente.
Do ponto de vista laboratorial, solicito a dosagem de testosterona total e livre, preferencialmente entre 7h e 11h da manhã, em jejum, pois os níveis são naturalmente mais elevados nesse período.
O que mais pode causar a queda de libido além da DAEM?
Nem toda queda de libido tem causa hormonal. Existem outras condições que, se não identificadas, tornam o tratamento ineficaz:
- Doenças crônicas: Diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
- Medicamentos: Anti-hipertensivos, antidepressivos e corticoides podem ter esse efeito colateral.
- Saúde mental: Depressão, ansiedade e o estresse crônico (que libera cortisol, inibidor da testosterona).
- Conflitos relacionais: Problemas de comunicação e insatisfação no relacionamento afetam diretamente o desejo.
Tratamento e Mudanças no Estilo de Vida
Assim que o diagnóstico de DAEM é confirmado, o tratamento de eleição é a terapia de reposição de testosterona (TRT). Atualmente, ela está disponível em formas como injeções intramusculares (curta ou longa duração), géis transdérmicos e implantes subcutâneos.
Todavia, o tratamento funciona muito melhor quando combinado com um estilo de vida saudável.
Nesse contexto, o exercício de força, o controle de peso, a cessação do tabagismo e o manejo do estresse são fundamentais. Afinal, a reposição hormonal é apenas uma parte da equação para retomar a vitalidade.
Em conclusão, não espere os sintomas se tornarem insuportáveis.
Se você percebe queda de desejo, cansaço ou dificuldades de ereção, vale a pena uma avaliação especializada.
Pelo contrário do que muitos pensam, esses sintomas não precisam ser aceitos como uma consequência inevitável do envelhecimento.
Referências
- Bhasin, S., et al. Testosterone Therapy in Men with Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018. Disponível em: https://academic.oup.com/jcem
- Lunenfeld, B., et al. Recommendations on the diagnosis, treatment and monitoring of hypogonadism in men. Aging Male, 2021. Disponível em: https://www.tandfonline.com
- Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). Diretrizes Brasileiras sobre Hipogonadismo Masculino. Disponível em: https://portaldaurologia.org.br
- Wang, C., et al. Investigation, treatment, and monitoring of late-onset hypogonadism in males: ISA, ISSAM, EAU, EAA, and ASA recommendations. Journal of Andrology, 2009. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com
- Morales, A., et al. Andropause: a misnomer for a true clinical entity. Journal of Urology, 2000. Disponível em: https://www.auajournals.org
As informações contidas neste artigo têm caráter exclusivamente educativo e informativo, em conformidade com as normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina (CRM). Elas não substituem a consulta médica individualizada. Cada caso é único e deve ser avaliado por um profissional habilitado.
